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A evolução do Design na Industria: A dualidade entre beleza e utilidade

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Primeiro automóvel movido a gasolina do mundo. Fonte: https://despachante.com/blog/carro/conheca-a-historia-do-primeiro-carro-do-mundo/

Ao longo da história da humanidade, mudanças e evoluções em vários níveis sempre ocorreram, mas a natureza humana se manteve incrivelmente imutável. Somos muito parecidos com os povos que viviam em tempos antigos e podemos nos identificar facilmente com as problemáticas humanas representadas em histórias completamente diferentes. Se percebe, também, que a capacidade humana de frutificar design se manteve constante, muito embora os meios para tal tenham sido alterados, simultaneamente às muitas mudanças tecnológicas, institucionais e culturais.

“Também design tem as mesmas origens das palavras “desenho”, disegno, diseño e dessin. Enquanto estas últimas, porém, sozinhas, indicam primariamente a capacidade de representar a realidade ou as ideias numa superfície de suporte, então a mesma representação delas, a palavra “design”, possui em si um significado mais abrangente e é habitualmente usada como sinônimo de projeto. Inclusive é verbo, sendo que to design equivale seja a “desenhar”, seja a “projetar”.” (FRANZATO, 2010, pg. 90)

Antes mesmo da Revolução Industrial mudar os rumos da tecnologia mundial, as aplicações do design em produtos manufaturados já era real. O crescimento do comércio na era medieval foi um passo crucial para o desenvolvimento da especialização dos métodos de produção artesanal, principalmente nas cidades europeias, onde se fazia necessário satisfazer os gostos da igreja, da corte e dos comerciantes mais ricos. 

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Com o passar do tempo, um maior demanda por inovação foi se tornando evidente e novas técnicas de produção foram surgindo: artigos de porcelana, de vidro, de ferro e demais materiais agora deveriam atender o que estava na “moda” além de conciliar ornamentação e aplicação. A natureza única dos produtos artesanais deriva de suas características diferenciais, que podem ser utilitárias, estéticas, artísticas, históricas, de caráter cultural e simbólicas do ponto de vista social.

“O design é central para a inovação, que  tem sido colocada como a base de um novo ciclo de  desenvolvimento, estruturado a partir da criatividade e do conhecimento.” (CASTRO, 2009, pg. 90)

O design surge na revolução industrial em razão da necessidade de um projeto que potencializasse a produção nas etapas de execução. A divisão de tarefas permitia uma maior rapidez na fabricação, diminuindo em cada etapa um pedaço de tempo que seria gasto em planejamento que não seria reaproveitado posteriormente. Ao final da dita revolução, diversas correntes do design se moveram em direção oposta em relação à indústria, de maneira especial indo ao encontro das formas de produção artesanal e cultural.

“O desenho industrial é um processo de criação, invenção e definição separado dos meios de produção. Ele envolve uma síntese final de fatores contributivos e muitas vezes conflitantes numa concepção de forma tridimensional e na sua realidade material passível de reprodução múltipla por meios mecânicos.” (HESKETT, 1998, pg. 10)

De fato, poderíamos definir um singelo contraste entre a reprodução pura das obras artesanais do passado, repleta de história e sem caráter de lucro, e o produto industrial, como um artesanato vivo que contém a essência de sua época, com preço elevado e destinado a alta classe. A importância conferida à oposição entre o processo de criação e o processo de execução alimenta a discussão sobre o valor artístico da obra reprodutível, num novo conceito de originalidade: o foco se desvia para o processo de criação do objeto, introduzindo uma nova noção de arte.

“A Revolução Industrial não só transformou o artesanato tradicional, mas, com o aumento das inovações técnicas, fez surgir muitas novas indústrias que aplicavam processos mecanizados à produção de uma série de formas novas.” (HESKETT, 1998, pg. 27)

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Sendo um dos grandes nomes do design industrial, Christopher Dresser (1834 - 1904) utilizou os seu estudos em botânica como fonte se inspiração em diversas obras. Ele encontrou nas plantas e em suas estruturas formas geometricamente equilibradas. A partir desse ponto, Dresser investiu mais tempo em seus estudos científicos e se aprofundou mais no meio artístico e do design.

No que tange o limiar da originalidade, surge a abstração: num momento em que as formas da natureza não são o bastante para satisfazer a criação do design, o indivíduo buscou inspiração em formas que surgem do âmago exclusivamente humano. O acúmulo de experiencias, pensamentos e palavras evoluiu métodos de composição e expandiu horizontes no meio artístico e empresarial, uma vez que a demanda por ineditismo aumenta nos mais diversos núcleos sociais.

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“O desenho industrial encontrou as próprias bases científicas, tecnológicas e culturais na arquitetura e na engenharia, além das artes. A partir destas bases e na relação com a indústria, desenvolveu-se um construto original de conhecimentos e competências peculiares.” (FRANZATO, 2010, pg. 90)

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Roupas e artigos femininos. Fonte: Acervo de imagens do Wix

De certa forma, podemos assimilar o design como um ato mais racional que artístico devido sua dimensão e sua função em prol da benesse humana. O design, que interage com diversas outras áreas durante um projeto, tem se dedicado a oferecer produtos que interajam com o consumidor, tornando‐os um “terceiro braço” das marcas e, consequentemente, gerando benefícios financeiros para as empresas. 

A discussão entre a arte e a indústria na atuação do designer não pode mais ser fonte motora de sua complexidade. A modificação no papel do designer, ao contrário daquilo que aparenta, significa uma elevação da profissão. Isto porque a sociedade contemporânea, devido a modificações sofridas nos seus modos de vida, produção e consumo, revela-se por meio de uma trama de extensões idealizadas.

Os profissionais da área atuam, em sua maioria, em compromisso com processos dependentes de seu trabalho, como a produtividade, a comercialização, a ergonomia, a funcionalidade, a usabilidade e outros. “As relações do design com a indústria e com a arte fazem parte do debate ampliado que está sendo instituído e as diferentes visões definem as possibilidades de intervenção institucional no sentido de contribuir para mudanças materiais que permitam a reconstrução do tema da sustentabilidade.” (CASTRO, 2009, pg. 90)

O design encontra‐se, hoje, em plena metamorfose, o que compreende definições transitórias, que mudam em função dos interesses e ideologias. A ligação do design com a indústria deve ser beneficiada pelos conceitos da arte: ela é subjetiva em nosso corpo, fundadora em nossa mente e alimento para nossa alma.

Referências:

CASTRO, M. L. A. C. DE. Entre arte e indústria: o artesanato em suas articulações com o design. Revista Espaço Acadêmico, v. 9, n. 102, p. 89-96, 7 out. 2009.

Design & Revolução Industrial. Cloudy, With Occasional Rain. Disponivel em: <https://justmajortom.wordpress.com/2008/03/13/design-revolucao-industrial/>. Acesso em: 09 fev. 2022.

FRANZANATO, Carlo. O design estratégico no diálogo entre cultura de projeto e cultura de empresa. Strategic Design Research Journal, 3(3): p. 89-96, set.-dez. 2010.

HESKETT, John. Desenho Industrial. Brasilia: José Olympio, 1998

Ficha Técnica: 

Texto desenvolvido por Aramiz Sousa Silva para a disciplina Introdução ao Estudo do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).

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