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Papel social do design e a indústria

Analisando a história do design, que tem como berço as questões sociais influenciadas pela revolução industrial e o ostracismo do artesanato, podemos, no entanto, encontrar alguns nomes que se opunham à utilização do design em união à produção industrial. John Ruskin considerava que a fabricação em série resultava em produtos de baixa qualidade, sem senso artístico ou estético, mas para ele, o real problema era a falta de bem-estar dos operários (FORNASIER; MARTINS; MERINO, 2012).

Ao emergir e se fortalecer graças ao poder da indústria, o design consuma a sua importância no contexto econômico, mas o seu papel social é inicialmente ignorado pelas empresas. Isso é expressivo quando pensamos na Segunda Revolução Industrial, na qual a desvalorização da mão de obra é expressiva, junto da falta de especialização dos funcionários e dos investimentos em maquinários que substituem a interação homem-produto (OLIVEIRA; SILVA; MORIBONDO, 2020). 

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Figura 1: John Ruskin
https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Ruskin

As máquinas aparecem aí como um ideário do progresso e desenvolvimento socioeconômico, que supostamente facilitariam o trabalho do artesão. Contudo, alguns profissionais das artes consideravam que a consequência dessa implementação era uma qualidade estética questionável (OLIVEIRA; SILVA; MORIBONDO, 2020). 

Ao emergir e se fortalecer graças ao poder da indústria, o design consuma a sua importância no contexto econômico, mas o seu papel social é inicialmente ignorado pelas empresas. Isso é expressivo quando pensamos na Segunda Revolução Industrial, na qual a desvalorização da mão de obra é expressiva, junto da falta de especialização dos funcionários e dos investimentos em maquinários que substituem a interação homem-produto (OLIVEIRA; SILVA; MORIBONDO, 2020). 

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Figura 2: Movimento Artes e Ofícios
https://www.passeidireto.com/arquivo/36665543/hdg-002-arts-and-crafts

No século 19, o movimento de Artes e Ofícios é um exemplo de resistência àquilo que estava sendo proposto no projeto da industrialização, no qual participaram vários pensadores e artistas, que além de defenderem uma produção mais artesanal, também advogavam pelas condições de trabalho, ilustrando uma oposição estética e também intelectual.

Um dos principais nomes do movimento foi William Morris, proprietário da “Morris & Company”, uma companhia especializada em papéis de parede, tapetes, tipografias e mobílias. Era uma empresa voltada para a produção artesanal, com número limitado de maquinaria, e que tinha como principal conduta a autonomia tanto no processo de produção quanto no de comercialização de seus produtos, sendo admirada pela valorização da mercadoria.

Contudo, é apenas no século 20, mais especificamente na década de 30, que, com o fortalecimento dos sindicatos, mudanças mais expressivas começam a ser vistas quanto ao interesse das empresas com o bem-estar social (FORNASIER; MARTINS; MERINO, 2012). De acordo com o Instituto Ethos, uma empresa só tem responsabilidade social quando participa de programas sociais e investe “em processos produtivos compatíveis com a conservação ambiental e a preocupação com o uso racional dos recursos naturais [...] por serem de interesse da empresa e da coletividade” (FORNASIER; MARTINS; MERINO, 2012).

Passa a ser direcionada uma maior atenção não apenas para a experiência dos consumidores dos produtos, ideias e conceitos desenvolvidos pela indústria, mas também um cuidado com as novas necessidades gerais da sociedade e meio ambiente. Surgem, então, diversas maneiras de se fazer design voltadas para um bem coletivo, alguns exemplos mais expressivos são encontrados no design inclusivo ou universal, design sustentável e no design social.

O design inclusivo ou design universal, é caracterizado pela tentativa de garantir o atendimento das necessidades de um público o mais amplo possível. Ele se guia pelo conceito “universo dos usuários”, no qual é possível pensar nas diferenças e semelhanças entre os usuários, além de abranger os diversos contextos em que eles podem estar inseridos, seja físico, social ou econômico (SOUZA, 2021).

O design sustentável maximiza os objetivos ambientais, mas sempre levando em consideração o desenvolvimento econômico, desde que seja responsável, e o bem-estar da sociedade de forma mais ampla, já que se preocupa com a garantia de estabilidade também para as gerações futuras.

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Figura 3: Design Inclusivo
https://edrodrigues.com.br/blog/como-praticar-o-design-inclusivo-em-seu-fluxo-de-trabalho-diario-6-dicas-para-designers/

Já para o design social, o papel do designer é melhorar a qualidade de vida e atender as reais necessidades do ser humano. Ele envolve uma metodologia que possibilite minimizar as desigualdades sociais e demais problemas, além exigir conhecimentos em sociologia, psicologia e antropologia (PAZMINO, 2007). Segundo Victor Papanek (1993; apud FORNASIER; MARTINS; MERINO, 2012): “Designers ativos que somos, sabemos hoje que fazer unicamente aquilo que nos pedem - ou seja, obedecer ao cliente sem debater as questões morais e éticas inerentes ao que criamos - é a recusa última das responsabilidades do ser humano”. 

Assim, podemos enxergar que tais caminhos para o design se relacionam e se comunicam em diversas propostas, visando basicamente o bem-estar e o equilíbrio para sociedade de forma geral. O esperado é que eles aconteçam de maneira efetiva em todos os projetos de design e não se limitem a nomes ou condutas isoladas.

REFERÊNCIAS

FORNASIER, Cleuza B. R.; MARTINS, Rosane F. F.; MERINO, Eugenio. Da responsabilidade social imposta ao design social movido pela razão. Santa Catarina, 2012. 

OLIVEIRA, R. J.; SILVA, Camila A. P.; MORIBONDO, J. F. “Processos, produtos e pessoas: o papel social do design e as relações de trabalho na indústria 4.0 sob a ótica dos serviços prestados por aplicativo", p. 1401-1413. In: Anais do Colóquio Internacional de Design 2020. São Paulo: Blucher, 2020. ISSN 2318-6968, DOI 10.5151/cid2020-105

PAZMINO, A. V. Uma reflexão sobre Design Social, Eco Design e Design Sustentável. In: I Simpósio Brasileiro de Design Sustentável, 2007, Curitiba, Anais… Paraná, 2007. ISBN 978-85-60186-01-3

SOUZA, A. Design universal e Design inclusivo: transformações para uma nova aplicação. Transverso, [S. l.], n. 2, p. 21–37, 2021. Disponível em: https://revista.uemg.br/index.php/transverso/article/view/5396. Acesso em: 14 fev. 2022.

FICHA TÉCNICA

Texto desenvolvido por José Fellipe Siqueira da Fonsêca para a disciplina Introdução ao Estudo do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).

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